Tuesday, January 26, 2010

Buenos Aires, 2º dia: aprendo a andar

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A lista

Apesar do Lonely Planet na mochila, antes mesmo de sair do Brasil tomei duas decisões:

1. Não fazer uma programação antecipada e engessada dos meus dias. Me comprometi a visitar/fazer o que desse, quando desse e se desse. À princípio, entre os meus favoritos, estão:

a) aprender a dançar salsa;
b) assistir a um show de tango;
c) assistir a um show de tango informal nas ruas;
d) fazer uma aula de tango;
e) visitar o cemitério da Recoleta (onde jaz Evita Perón);
f) tomar sorvete da marca Fredda;
g) visitar o Café Tortoni e a Confitería Ideal.

2. Não colocar relógio ou celular para despertar.

E, obedecendo à segunda premissa, acordei sozinha às 9h30 da manhã - um pouco mais tarde do que eu esperava e do que havia combinado com Gris. Ela disse que me acordaria para caminharmos, mas não o fez. Me arrumei e subi para tomar café da manhã.
O desjejum dos porteños faz juz ao nome. A mesa estava posta com pires, xícara, caneca e talheres. Porém, havia somente um pote com biscoitos tipo cream creacker para me servir. Maria me ofereceu algo para beber, mas não entendi o quê, nem ela tendo repetido "rôgurr de vanicha" umas 10 vezes e bem devagar. Então, surpresa por eu ter dito que sequer conhecia aquilo, ela mandou um "No te preocupes, é muy rico, te vas gustar", tirou o pacote da geladeira e encheu minha caneca. Iogurte de baunilha! Já havia bebido iogurte, mas nunca de baunilha.
Gris despertou e fomos caminhar. Saímos de Palermo, em frente ao zoológico, e tomamos a Av. Del Libertador em direção à Recoleta. Palermo é uma gracinha de bairro e a caminhada está repleta de cafés estilo parisiense de um lado; do outro, grandes parques. Notei que não há grades envolvendo a área verde e isolando as pessoas a partir de determinada hora; ninguém controla entrada/saída do local. Todos são livres para ir e vir, a hora que bem entender, quando quiser. Talvez exatamente por isso, não há (muitas) pessoas ocupando essas áreas como se fossem suas casas. Nas duas vezes que fiz esse trajeto, vi um total de apenas 2 pessoas banhando-se de manhã ou perambulando; nenhuma dormindo, morando ou pedindo dinheiro. Inclusive, devo dizer, um era tão jovem e lindo que me perguntei porque ele está nas ruas ao invés de estampar seu belo rostinho em capas de revistas.
Segundo me disse Gris, os bairros Palermo e Recoleta abrigam a classe média e os milionários de Buenos Aires. Os antigos e tradicionais edifícios, principalmente neste último local, são encantadores e era como eu imaginava New York. Chegamos ao meio-dia no cemitério, onde anotei mentalmente dois horários para participar da visita guiada gratuita no dia seguinte de manhã (no meu caso, 9h30 ou 11h; são sempre de graça e somente em espanhol). Em frente, está a praça mais linda em que já estive na vida. Queria ficar lá a tarde toda... Da porta do Recoleta, vi a sorveteria Freddo. Estava uma chuva fininha quando paramos lá para tomar sorvete de doce de leite, flocos e frutas vermelhas (cada bola custa uns $12 ou $15 pesos).
No caminho de volta à casa, Gris me ensinou a andar e me localizar nas ruas.
Como pedir direções
É muito fácil se locomover em Buenos Aires. Diferentemente da colonização portuguesa no Brasil, os espanhóis simplesmente recortaram a cidade toda em quadradinhos, como fatias de bolo. A cidade inteira é assim, do bairro mais abastado ao mais miserável. Não acredita? Olha só no mapa.
Guarde esta: taxistas ou pedestres porteños não se guiam pelos números, mas pela "altura", isto é, entre que esquinas determinado local está. Se você não tem esta informação, vale a pena checar no Google Maps antes de sair do hotel, albergue ou casa, principalmente se o lugar que você procura não é turístico. Eles vão sempre te dizer quantas quadras você precisa andar para chegar ao local; o inconveniente é que demora para chegar ao final de uma quadra e andar 5 delas já cansa bastante.

Se você está a pé e sabe o número de onde quer chegar, é simples: uma vez na rua correta, basta guiar-se pelas placas. Em qualquer bairro, a primeira quadra sempre vai dos edifícios 0 a 100; a segunda, do 101 ao 200 e assim por diante.
Os porteños - os nascidos em Buenos Aires - têm um senso de direção incrível. Porém, a cidade está cheia de imigrantes do Peru, Bolívia, Chile etc, muitos deles recém-chegados e que não compartilham do mesmo dom. Além disso, ao pedir informação a passantes você corre o risco de estar falando com um turista. Vai por mim: prefira pedir informação aos donos de estabelecimentos ou a um dos inúmeros guardas municipais espalhados nos bairros. Estes - diga-se de passagem - são os melhores para te fornecer la dirección.
Aprendo a comprar e a comer
Não havia comida pronta em casa e então saímos, eu e Gris, sem almoço, para encontrar Lilly em seu trabalho: a perfumaria Primo. Presidida por Claudio (marido de Gris e cunhado de Lilly), a Primo é classificada como uma majorita, uma loja que vende a preços baixos artigos de perfumaria e banho para donos de drogarias e afins. Consumidores finais também podem adquirir produtos. Como sou amiga da família, me fizeram tudo a preço de custo. Imagina comprar um pote 450 ml de Pantene por míseros R$ 4,00? Fiz a festa.
Lilly saía do trabalho às 15h naquele dia, mas só deixamos a Primo às 16h30 e eu já estava definhando de fome. Àquela hora, qualquer lugar que servisse almoço estava bom. Mesmo tendo dito dezenas de vezes que estava morrendo de fome, Lilly e Daniel - amigo dela, que decidiu nos acompanhar - ainda me fizeram caminhar por umas 30 quadras, até, afinal, chegarmos à Florida (no bairro Microcentro), para devorar um burrito gigante ($ 30) no California Burrito Co.
Tive que me controlar para não ficar irritada e chateada, porque me pareceu que eles estavam pouco preocupados com a minha fome. Mas compreendi que a culpa era minha: no caminho, paramos em um Kiosco - lojas de conveniência, espalhadas por toda a cidade - e me perguntaram se eu queria levar algo. Além disso, eles queriam me levar para comer em um lugar legal...
Mais um motivo para a minha irritação foi ter percebido, já nesse primeiro dia, que havia calculado errado sobre quanto levar. Vai por mim: programe no mínimo $ 200 pesos por dia e por pessoa para gastar com transporte, refeições, atividades e compras modestas. Eu fiz a besteira de prever apenas $ 100 por dia. Uma vantagem em Buenos Aires: reais, dólares e pesos, tanto faz. Todas as moedas são amplamente aceitas, por qualquer estabelecimento e qualquer pessoa, até ambulantes. Mas recomendo fortemente trocar reais por pesos no Banco de La Nación, no aeroporto.
Deu fome? Está sem grana? Há duas opções. Para os adeptos de besteiras e guloseimas, sugiro parar em um Kiosco e escolher entre um pacote de batatas Lays ou Bono, Oreo, Negresco. São o melhor custo x benefício para quem não faz questão ou não quer perder tempo almoçando. Não adianta procurar supermercados - vi nenhum pela cidade.
Agora, se é prioridade comer bem, vá a um restaurante. Minha dica: pergunte aos comerciantes onde pode almoçar bem pagando pouco. Em geral, uma refeição decente custa cerca de $ 50 pesos. Graças ao dono de um Kiosco, teve um dia que consegui pagar $ 26 em um prato-feito bem servido e delicioso, incluindo bebida e 10%! Infelizmente, não anotei o nome do lugar e dizer que fica na Av. Corrientes esquina com uma rua cujo nome também não lembro é brincadeira com vocês.
Não perca tempo: em encontrar um self-service. Enquanto aqui é praticamente uma tradição moderna, os habitantes de Buenos Aires não sabem o que é e não existem self-services na cidade. Os restaurantes são todos à la carte ou esquema de buffet e, infelizmente, também não tenho nenhum para indicar.
Puerto Madero
Depois dos burritos, mais caminhada. Dessa vez, fomos em busca da tanguería El Viejo Almacén para reservar lugares para o considerado melhor show de tango da cidade. Meus pés já estavam doendo, em parte porque meus sapatos eram impróprios para tanta andança.
Daniel é um doce, muito cavalheiro e a mulher que casar com ele terá tirado a sorte grande. Não faz meu tipo - infelizmente, porque é muy buena persona -, mas nada na vida pode ser perfeito, né? Como um bom partido do sexo masculino, revela um comportamento típico de homem: odeia pedir direção a quem quer que seja, a menos que realmente não tenha ideia alguma de para onde está indo. Assim, andávamos muito para qualquer mínima coisa que quiséssemos fazer. Lilly adora andar, então, não reclamava. E eu muito menos, até porque não me achava no direito. Acho que só não andamos em círculos porque eu levava meu guia da Lonely Planet para onde quer que eu fosse.
Graças ao Dani e sua incrível lábia, conseguimos lugares para uma cena show no dia seguinte.
Andamos mais algumas quadras e chegamos a Puerto Madero. Lembram dos mosquitos ninjas? Pois é, aquela é a área principal deles. Vai por mim: leve repelente e aplique a cada cinco segundos. Sentamos para comer uma pizza ($ 40 pesos, no restaurante ao lado do Asia de Cuba) e quem saiu toda mordida fui euzinha.
Puerto Madero era uma zona portuária que foi reformada para receber turistas. Compreende nada mais, nada menos que dois largos e longos passeios às margens do rio de La Plata. De ponta à outra, encontramos bares turísticos e badalados, disputando espaço com os tais mosquitos assassinos e invisíveis. Para passar de um lado a outro, deve-se atravessar a belíssima Ponte de las Mujeres. Não consegui descobrir porque tem esse nome.
Difícil dizer se gostei mais daqui ou de Palermo. Só sei que senti uma sensação de pertencimento quando cheguei a Puerto Madero; ali, cheguei a desejar ser moradora da cidade. Toda a sensação irritante que me dominara momentos antes e o cansaço esvaneceram. Pude relaxar e me sentir em casa.
Atrações em Puerto Madero: ver o por do sol - que só acontece às 21h nessa época do ano; ver a lua cheia redondinha e brilhante lá no céu (sim, eu consegui!); visitar museus-escunas (existem dois, fecham às 19h, por $ 2 pesos cada).
Tudo foi incrível, mas as experiências mais fantásticas do dia foram andar em um microtrem super moderno (fica em frente ao bairro e não leva à muito longe, mas vale a pena porque a paisagem é bonita e o transporte é de primeira qualidade) e andar de ônibus na volta pra casa. Esta última foi a que mais me impressionou. Contarei mais sobre isso em um próximo post.
Ligando fácil, fácil para o Brasil

De volta à Palermo, às 23h, recebi o recado de que minha mãe havia ligado, preocupada por eu não dar notícias... Acessei a internet e descobri que existe um serviço chamado Brasil Direto, da Embratel. Funciona assim: a partir de qualquer telefone fixo, você disca para o 0800 indicado na lista e cai direto na gravação automática, que pede pra você digitar o código da cidade e o número do telefone. Simples assim! Nada de códigos de país ou de digitar 15 algarismos para falar com uma pessoa.
Em segundos, estava tranquilizando minha mãe, que estava a ponto de ligar para meu pai achando que eu tinha sido sequestrada... Ai ai... =P
Morais do dia
(1) Quando se viaja, principalmente para ficar hospedado na casa de outras pessoas, tem que ter a cabeça bem aberta, para adaptar-se à cultura não só do país, mas também à da família. Isso se aplica principalmente aos hábitos alimentares. Ou você se adapta aos costumes, ou fará da convivência um inferno.
(2) Ligue pra sua família assim que pisar no aeroporto. Ainda que você morra no meio da viagem ou seja um desnaturado e só ligue novamente dali a 30 dias, eles ficaram tranquilos ao saber que você "chegou bem".
* Pequeno dicionário para sobrevivência (II) *
  • arreglarse = arrumar-se, aprontar-se para sair
  • colectivo = ônibus
  • dale = ok, tudo bem, claro, entendi. Uma das minhas palavras favoritas, não há uma tradução específica. Usa-se quando se quer assentir ou concordar com alguma coisa que o interlocutor disse ou confirmar uma ação requisitada pelo interlocutor. Pelo uso, deduzi que poderia significar qualquer uma das opções anteriores.
  • desayuno = café da manhã
  • frutillas = frutas vermelhas
  • granizado = flocos
  • helado = sorvete
  • poso passar ao toillete? = posso usar o banheiro do seu estabelecimento?
  • precioso(a) = muito lindo(a). Para elogiar cabelos, roupas e acessórios.
  • rico, muy rico, riquíssimo = Para elogiar e recomendar comidas, em geral, preparadas por alguém.
  • subte = metrô
  • vanilla = (pronuncia-se "vanicha") baunilha
  • vos = você
  • yoghurt = iogurte

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