Sunday, March 7, 2010

Buenos Aires, 6º dia: salsa!

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Hoje é 1º de janeiro de 2010. Feriado internacional.



Acordei umas 10h e fui direto tomar café da manhã. Perguntei à Lilly se eu poderia esquentar no microondas umas 2 empanadas de presunto e queijo. Ela me olhou com uma cara de surpresa, como quem diz "vai comer isso logo pela manhã?", mas assentiu. Foi só quando viu meu copo cheio de iogurte de baunilha que comentou que estranhava aquele atípico (e farto) café da manhã. Desjejum na Argentina é literalmente sair do jejum. Nada de fartura e comer bastante como aqui.

Educação vem de berço

Cada vez fica mais evidente para mim que educação se aprende em casa e desde pequeno. Estava lavando minha louça quando Lilly irrompeu na cozinha com um DVD player portátil. Passei o restante da manhã assistindo a Coraline com a prima de 9 anos dela.

Já havia observado desde a noite anterior que a menina é fofa, prestativa, educadíssima. As filhas de Gris e até mesmo Daniel também são assim. Não sei dizer como e em quê exatamente, mas é notável a diferença na educação entre crianças brasileiras e porteñas. Desde pequenos, todos são ensinados a serem muito respeitosos e educados. Resultado: meninas-quase-princesas e homens-cavalheiros. Fiz uma nota mental para quando tiver filhos: voltar à Argentina para investigar o que é que eles fazem para criar cidadãos daquele jeito.

Vimos o filme com áudio em español (para ela) e legenda em inglês (para mim). Isso foi engraçadíssmo, porque consigo entender algumas frases em espanhol, mas não sou fluente, então sem condições de ficar totalmente sem legenda. Só no final da película descobrimos que havia a possibilidade de colocar subtítulos em português. Quando o filme acabou, fui procurar Lilly para sairmos. Encontrei-a na sala, assistindo pela TV à multidão que aguardava a partida dos carros da Rally Dakar 2010 no centro de Buenos Aires.

Parque 3 de Febrero (Palermo)


Mais ou menos às 13h, saltamos do ônibus nos Bosques de Palermo, mais especificamente. O lugar, também conhecido como Parque 3 de Febrebro, é um sonho. Quando percebeu minha excitação, Lilly propôs de passearmos um pouco por ali. Eu adoro a Lilly justamente por causa disso. Quem dera todas as pessoas fossem flexíveis e compreensivas assim. Tudo na vida dela resume-se a uma palavra: desfrute.

O parque circunda um lago superpovoado de patos. Bem ao centro deste lago, existe um roseiral maravilhoso, decorado por pergolados inspirados na arquitetura grega. Só é possível visitar o roseiral alugando um pedalinho por $25 pesos, meia hora.

Vai por mim: alugue por uma hora (porque duas pessoas pedalando sem pressa demoram exatos 30 minutos pedalando sem pressa para chegar ao pergolado) e tire uns minutos para circular pelas roseiras. Vale muito a pena.

Enquanto uns faziam piqueniques e outros andavam de skate, bicicleta ou patins, eu, Lilly e Daniel escolhemos conhecer o restante do parque "à bordo" de uma carruagem puxada por um cavalo - e com direito a cocheiro! A volta é bem rápida e, em matéria de custo-benefício, ainda tenho dúvidas se valeu os $45 pesos que pagamos. Mas se você é como eu, que não poupa esforços para embarcar numa oportunidade para visitar séculos passados, vai gostar.


Depois fomos deixar nossos pertences no apartamento de Gris. Desta vez, eu já estava bem esperta com relação à questão da comida e devorei metade de um pacote de 700gr de batatas Lays. Na corrida para ver a largada do Rally Dakar - que foi bem sem graça e demorada, na minha opinião -, paramos numa padaria para comprar um pacote de pão de forma e alguns gramas de presunto e queijo.

El Caminito

Pegamos o ônibus para La Boca por pouco mais de $1 peso. Chegamos na minha última parada turística umas 18h. Meu objetivo em El Caminito era encontrar alguns porteños bailando o tango nas ruas, da mesma forma que encontramos sambistas e forrozeiros por aqui.

El Caminito é a área turística do bairro mais barra pesada que existe em Buenos Aires: La Boca. Também é nesse bairro que fica o famoso estádio de fútbol La Bombonera, residência oficial do time Boca Juniors.

A parte turística de El Caminito que me interessa resume-se a um minúsculo quarteirão de sobrados culturais multicoloridos que dão de frente para um rio super poluído. Nas varandas desses edifícios, esculturas também coloridas de personas famosas na Argentina acenam e sorriem para os visitantes. A animação fica por conta de uns 3 bares com mesinhas nas ruas, abertos especificamente para atender aos "gringos". Para completar o cenário, o governo, na tentativa de tentar levar um pouco de cultura aos moradores, abrigou no calçadão que margeia o rio uma exposição com quadros famosos do Louvre. Infelizmente, a maioria estava pichada.


Antes de dar um giro e sacar fotos por lá, paramos em uma galeria, onde comprei miniaturas em gesso do El Caminito e do El Viejo Almacén para minha coleção. Demos a volta pelos casarões (juro, isso não dura 2 minutos, mesmo parando para admirar e fotografias) e sentamos em um banco de madeira ao lado de um bar que já estava bem badalado para almoçar nossos sanduíches de presunto e queijo.

Dali a pouco, um jovem com cara meio desesperada e pinta de drogado se aproxima e começa a falar com Daniel, fazendo sinais de arma na cabeça com a mão direita. A mão esquerda estava escondida atrás da calça, como se estivesse segurando escondido algum objeto dentro da calça. Eu e Lilly gelamos.

Entretanto, seu tom de voz era o mesmo de quem estava desesperado em busca de orientações. Nervosa para processar qualquer coisa, consegui apenas identificar frases soltas como "apontaram uma arma na minha cabeça", "o que que eu faço?", "me levaram tudo", "não sei o que fazer agora", "tenho a arma aqui". Morri de medo de abrir a boca para confirmar qualquer informação com Lilly e o homem perceber que eu era turista. Na hora, a única coisa que pensei foi "turista pobre é uma M. Se eu tivesse pesos suficientes, estávamos num bar, sentados e tranquilos".

Fiquei branca como fantasma e perdi a fome completamente. Senti meu corpo preparando-se para correr e puxar Lilly, se fosse necessário. Dei meu máximo para agir como se nada anormal estivesse acontecendo. Dani manteve-se calmo e inalterado, conversando com o cara como se fossem amigos de longa data. Quando crescer, quero ser como ele. Eu aguardava ansiosamente por um sinal para levantarmos e ir embora. E este só veio depois que o cara puxou a blusa pra cima e mostrou não a suposta arma, mas um ferimento com um curativo bem malfeito. Dani pediu licença, levantamos e entramos na primeira galeria ainda aberta. Ufa.

Vão por mim (mulheres principalmente): nunca - absolutamente nunca - visitem o El Caminito desacompanhados, independente da hora do dia. Quanto mais gente, melhor. Ninguém merece sair do Brasil para quase ser assaltado(a) na Argentina!



Tragédia no Brasil



Enquanto Lilly dormia na cama de Antonella, em Palermo, liguei para o Brasil. Saudades da família... Foi quando fiquei sabendo da tragédia em Angra dos Reis - onde minha família mora e estava passando o Ano Novo - e em São Paulo. Minha irmã mais nova festejou a virada na Ilha Grande, felizmente em uma praia onde não aconteceu nada. Minha mãe me contou que a cidade estava de luto e informou que parentes de uma de minhas melhores amigas haviam falecido. Nada aconteceu lá em casa, mas o morro onde essa grande amiga mora veio abaixo. Gostaria de aproveitar esse espaço para externar minha gratidão a todos os amigos e colegas que se preocuparam comigo e com meus familiares nesse período. Muito, muito obrigado.


Decidi não contar nada à Lilly, para que não se alarmasse. Além do mais, não é agradável ficar lembrando, explicando, recontando tragédias. Passado o choque inicial, estava na hora de acordar Lilly para nos arrumarmos para a tão aguardada noitada.

Finalmente...Salsa!


Anota aí a parada obrigatória: Azúcar Belgrano, o que fica à Av. Cabildo, 2040. Há dois "Azúcares" em Buenos Aires e este aí é o mais bem frequentado. Se eu tivesse conhecimento de que lá tem aulas de salsa, reggaeton e outros ritmos, teria renegado feliz da vida a classe de tango. Não conhece nenhum desses ritmos que tanto me encantam? Clique no link para o site principal desta boate e você vai ouvir um pouco de reggaeton.

A principal diferença entre os clubes brasileiros e argentinos é a entrada. Lá, o valor que se paga para entrar inclui somente a permissão para ingressar na casa; nunca é revertido para consumação. Já aqui se paga caro, mas na maioria das vezes este valor é abatido do que foi consumido. A night no Azúcar foi bem baratinha pra mim: $20 pesos de entrada + $10 de garrafas de água mineral + $20 pesos de táxi até em casa.


Chegamos lá à meia-noite. Por ser início do ano, feriado e véspera de fim de semana, havia espaço de sobra para dançar. Vimos Iana dançando com um carinha. Ainda reunirei a coragem dela, que foi parar lá completamente sozinha, ainda que soubesse que nos encontraríamos. Nunca vou esquecer o nome do meu primeiro parceiro de dança: Mariano.

Além de uma gracinha, é simpático, amável, humilde e um excelente professor. Bastou 20 minutos com ele para que eu aprendesse o ritmo. Se dependesse exclusivamente de mim, a noite com ele renderia. Mas acho que ele deve ter namorada. Sem zoação, essa foi uma das melhores noites de minha vida. E da Iana também, que ficou com um homem ma-ra-vi-lho-so: um cubano, de descendência italiana ou algo assim. Se ela não tivesse agarrado ele, eu agarraria. Céus, que homem.

Bem na hora do reggaeton, Lilly e Dani vão embora, porque ambos trabalham no dia seguinte. Fico sozinha na pista dançando reggaeton. Mesmo de havaianas, meus pés doíam. Sentei no sofá para descansar quando um garoto muito fofo me tira pra dançar. Dali a pouco, a pessoa me rouba um selinho e me larga na pista! Fiquei meio chocada com a atitude meio covarde dele, que veio me pedir desculpas logo em seguida. Conversamos um pouco e, às 5h, com o dia já clareando, fui-me embora pra casa.

O dia seguinte guardava ainda mais surpresas.

* Pequeno dicionário para a sobrevivência (IV) *
  • bailar - dançar.
  • beso - beijo.
  • boliche (ou club) - boate.
  • novio/a - namorado/a.
  • película - filme.
  • sacar fotos - tirar fotos.

1 comment:

Ava Peixoto said...

Valeu pela dica sobre El Caminito! E eu que estava pensando em fazer esse passeio sozinha rssss
Gostaria de fazer aulas de salsa, mas durante o dia.
Abraço,
Ava