Friday, September 21, 2012

Caminho do Sol – De Salto a Elias Fausto

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Para fazer esse post, gostaria de transcrever exatamente como está no meu diário de viagem, pois nada do que eu disser aqui vai conseguir mostrar o agradecimento, o amor e o carinho que eu sinto pelas pessoas que passaram comigo essa jornada. Segue:

Escrito na Chácara do Seu Marino:
Acordei, levantei, arrumei minha mala e coloquei o tênis. Senti muita dor. Mesmo assim, tentei ir. A Rosana, uma das voluntárias, iria levar nossas coisas até a próxima pousada e também nos ensinar um atalho. Ela iria nos encontrar na saída da cidade.

Andei até o ponto onde a encontraríamos, sentindo tanta dor que parecia que eu estava andando de joelhos. Chorei de dor e de frustração, pois sabia que seria impossível caminhar os 30 km que me aguardavam. Meu irmão me acompanhou devagarzinho até a estrada.

Joguei a toalha e pedi arrego. Pedi carona para a Rosana, que acabou me deixando na chácara do seu Marino, que por enquanto serve como ponto de parada para o almoço dos peregrinos, já que o percurso é muito longo e ficaria muito tarde para almoçar em Elias Fausto.

(Nota1: Antes dessa parada, ela me levou ao pronto socorro de Salto, e o médico me recomendou tomar antibiótico e antiinflamatório, além de ficar 1 semana de repouso. Como eu ia ficar de repouso tendo mais metade do caminho pela frente?)

(Nota2: seu Marino e sua família são uns doces. Fazem o que podem e o que não podem para nos deixar à vontade, ou atender o que precisamos. Me fizeram escaldapés duas vezes, para tentar desinchar meus pés, e ainda me deram um pote com uma mistura de ervas para passar nos machucados).

O pessoal chegou aqui lá pelo meio dia, almoçamos, eles descansaram um pouco, com direito a uma cantoria emocionante do Seu Marino, e quando eles partiram eu fiquei. Fiquei com as minhas lágrimas de dor, tristeza e frustração, rezando para que, junto com a carona dele até Elias Fausto, venha a coragem para continuar o resto do caminho. Eu não gosto de desistir das coisas no meio, e não vai ser dessa vez que eu irei. Eu só preciso entender qual é a mensagem que estão tentando me passar com essa lição toda. Acho que está mais difícil entender isso do que aguentar a dor...

Escrito da Rodoviária de Itu, aguardando ônibus para São Paulo:
Seu Marino e sua esposa, Orlandina, são duas pessoas incríveis. Acordei à tarde, depois de passar umas 2 horas dormindo de pernas para cima na tentativa de desinchar mais os pés. Eles me chamaram para tomar um café. Como eu não tomo café, eles trataram de me arrumar um leite com direito a nescau. Comi os pães deliciosos feitos pela Orlandina e depois fomos todos para a pousada de Elias Fausto encontrar o resto do pessoal.

O meu destino foi chegar até ali, onde conheci o Rogério, o cara com a alma mais sábia que eu conheci. Cheguei lá com a receita de antibiótico que o médico de Salto havia receitado, e ele já sabia que eu estava precisando de uma farmácia e que não havia nenhuma aberta. Ele, não sei como, deu um jeito de "encomendar" o remédio para mim. Enquanto isso, o irmão dele, Thiago, me dizia que eu deveria ter uma segunda opinião médica, e não deveria sair tomando antibiótico, simplesmente.

Nesse meio tempo, o Thi, meu irmão, me fez prometer que eu iria desistir se no dia seguinte meu pé continuasse ruim. Nem cheguei até o dia seguinte...

Quando o Rogério voltou, me levou até o pronto socorro da cidade. Ficou comigo até eu sair lá com os pés enfaixados, parecendo duas meias, e outra receita com os mesmos remédios e as mesmas recomendações: faça repouso ou você vai piorar. Com muita dor no coração, mas já conformada, aceitei meu destino e voltei para a pousada.

Meus novos tênis =)
Foto do Maurício Ribeiro

No pronto socorro, conversei muito com o Rogério sobre destino e o por quê das coisas acontecerem, e essa conversa me ajudou muito. Ele é, junto com todos os outros, mais um cara absolutamente incrível (gente, desculpa, mas faltam adjetivos...).

Quando voltei para a pousada e contei que o jogo havia terminado, todos me deram muita força. É engraçado como as pessoas passam pela nossa vida. Tem muita gente no mundo que tem muita coisa para nos ensinar. Eu espero ter conseguido aprender um pouquinho com cada uma dessas pessoas que cruzaram meu caminho.

E experiência foi curta, mas a sensação de frustração já passou, e eu já entendi que meu destino era esse. Encontrei pessoas absolutamente incríveis, meu grupo era maravilhoso, todos eles. Thiago, Roger, Joel, Jomar, Fran, Fabi, Maurício, Álvaro. Todos fantásticos. O Thi, para começar, é um irmão que eu não sabia que eu tinha. Eu já era fã dele, e nunca escondi. Mas na verdade ele que escondia uma alma e um coração que acho que ninguém da minha família conhece. Eu precisava conhecer esse Thiago. Tem o Joel, que tem um coração tããão grande que não cabe dentro dele, e ele não tem medo de dividir. O Jomar dá uma lição de paciência e bom humor. O Maurício, dentro daquele jeito meio acelerado, tem uma alma enorme, e uma vontade de ajudar os outros que é até desconcertante. A força de vontade do Álvaro é gigante, ele só precisa acreditar mais nisso. A Fran, com todas as suas dúvidas e incertezas, lutou contra isso e renasceu. Tem a Fabi, que entrou por último no grupo, chegou com tanta naturalidade que é como se estivesse lá o tempo inteiro. E o Roger, com toda aquela calma que, mesmo com todas as dores e problemas, nunca pensou em desistir.

No final de tudo, pra fechar com chave de ouro, teve o Rogério (da pousada), que me ensinou, me fez rir e me fez chorar, e me adotou como irmã em umas 3 horas que tivemos de convivência. A vida é mesmo uma loucura...

Escrito em São Paulo, dias depois:
Agradeço a todos que estiveram comigo me dando forças. A quem ainda não fez o caminho e está lendo esses posts, saiba que cada dor, cada bolha (SE você tiver... pois o meu foi um caso isolado), cada gota de suor, cada sinal de cansaço, tudo isso é recompensado quando você recebe um carinho, um bom dia de um desconhecido, quando percebe o respeito das pessoas que cruzam seu caminho, quando percebe que as pessoas são muito melhores do que elas mesmas acreditam ser, e quando você percebe que você é muito melhor do que você achava que era. E pode ter certeza de que, quando você resolver fazer o caminho, vai ser porque tem alguma coisa lá esperando você. Seja uma resposta, seja uma pergunta. Seja um aprendizado, seja um crescimento que você vá estar preparado para receber. Quem sabe, seja até uma pessoa? A hora de fazer o caminho é ele mesmo quem escolhe. A gente não tem absolutamente nenhum poder de decisão.


1 comment:

Amarílis said...

Muito lindo este relato! Como escrevi no meu diário dos 32 dias na Europa: "the most important part of the journey is the people you meet down the road". Te amo, Thatha!!